Atleta aguarda confirmação definitiva da vaga em competição internacional em Portugal.
Rondônia - "Eu nado super-rápido e superforte, que nem o Papa-Léguas". É assim que Priscila Lobato descreve sua relação com a piscina.
Aos 15 anos, a nadadora com síndrome de Down lidera o ranking nacional em quatro provas, acumula mais de 40 medalhas e mantém uma rotina de treinos seis vezes por semana. Em alguns dias, entra na água antes e depois da escola.
Agora, ela se prepara para um objetivo maior: disputar o Campeonato Mundial de Natação e Nado Artístico para Pessoas com Síndrome de Down, que será realizado entre 30 de outubro e 7 de novembro, em Albufeira, Portugal.
"Eu vou viajar e competir em Portugal para ganhar muitas medalhas. Quero levar a bandeira do Brasil e escutar o hino do Brasil", afirmou em entrevista ao Migalhas.
A participação, porém, depende de uma inscrição que precisou ser buscada na Justiça e que, apesar do encaminhamento inicial pela confederação responsável, ainda não foi definitivamente confirmada.
Em decisão divulgada no domingo, 12, a juíza de Direito substituta Ana Beatriz Brusco, da 9ª vara Cível de Brasília/DF, determinou que a CBDI - Confederação Brasileira de Desportos para Deficientes Intelectuais inscrevesse a atleta e seu técnico no campeonato.
Após a concessão da liminar, a CBDI encaminhou, em 15 de julho, os dados e formulários de Priscila ao comitê organizador português.
A participação, contudo, ainda não está confirmada. Segundo a família, a entidade passou a articular a formação de uma delegação brasileira por meio de convites, sem critérios públicos de seleção e sem incluir inicialmente a atleta. Os pais sustentam que esse procedimento contraria as regras de transparência e impessoalidade previstas na legislação esportiva.
Em nova petição, afirmaram que o simples envio dos formulários não assegurava a vaga, que ainda dependeria da formalização da delegação pela CBDI e da validação pelos organizadores do Mundial. Por isso, pediram ao juízo novas providências para garantir a participação de Priscila.
"Ela faz parte da água"
Priscila nada desde os primeiros meses de vida. Segundo os pais, o contato com a água começou ainda bebê, inicialmente como uma preocupação com a segurança dos filhos.
O talento para a natação competitiva, no entanto, seria percebido anos depois.
Em uma academia, enquanto observavam a filha por uma janela de vidro, os pais se surpreenderam com a técnica da nadadora.
"Eu a vi nadando e não acreditei na perfeição do nado. A Priscila nada muito bonito, chama atenção. Ela desliza, faz parte da água. Ela não briga contra a água", relata a mãe, Sabrina Figueiredo.
A família, então, procurou o treinador Marcos Lima, que passou a acompanhar a atleta. Há cerca de três anos, Priscila ingressou no alto rendimento e deixou a dança para concentrar sua rotina na natação.
Desde então, coleciona resultados em competições nacionais. Na disputa mais recente, conquistou quatro medalhas de ouro.
Rotina de alto rendimento
Os pais ressaltam que a participação de Priscila no esporte não pode ser tratada apenas como uma atividade recreativa ou de socialização.
"O treino dela não é lúdico. Ela é uma atleta de alto rendimento. As pessoas pensam que a síndrome de Down é lúdica, mas ela se dedica, e a vida dela é voltada para isso", afirma o pai, Rodrigo .
A preparação também alterou a dinâmica da família. Médica, a mãe da nadadora deixou de exercer a profissão para acompanhar mais de perto a rotina dos dois filhos, que são atletas de alto rendimento.
Para os pais de Priscila, competir internacionalmente é uma forma de reconhecer o esforço diário da atleta e permitir que ela avance tecnicamente.
"No Brasil, ela já ganha as competições. Ela precisa ter uma competição fora para se sentir valorizada. Ela tem capacidade de ser uma atleta mundial e de trazer títulos para o Brasil."
Inscrição ainda preocupa
No último dia 17, o advogado de Priscila comunicou ao juízo que a confederação encaminhou, no último dia do prazo, os dados e formulários da atleta ao comitê organizador do Mundial. A participação, contudo, ainda não foi definitivamente confirmada.
Segundo a manifestação, no mesmo dia em que enviou a documentação de Priscila, a CBDI também iniciou uma tentativa de inscrever uma delegação brasileira na competição. A equipe inicialmente formada não teria incluído a nadadora, apesar dos índices e resultados técnicos já apresentados.
Para a família, a iniciativa criou um novo impasse: Priscila buscou na Justiça o direito de competir individualmente e com recursos próprios diante da informação de que o Brasil não enviaria uma equipe. Com a posterior tentativa de formação de uma delegação nacional, a confirmação de sua vaga voltou a depender de novas providências da confederação.
Ainda conforme a petição, o procurador da CBDI se dispôs a incluir a atleta na delegação, mas sem garantia de uma solução definitiva e mediante novas condições.
Segundo os pais, o cenário mantém a participação de Priscila sob risco e já interfere na programação dos treinos e na preparação da nadadora.
Diante da indefinição, a família pediu à Justiça a realização de uma audiência com a Confederação, para que o cumprimento da liminar seja formalizado de maneira consensual e segura.
Os pais também questionam a ausência de critérios previamente divulgados para a formação da equipe brasileira.
"Esses atletas se preparam dois anos, quatro anos para uma competição. Você precisa saber qual é o pré-requisito para participar, para saber se estará apto e o que precisa fazer. Aí, no dia em que termina a inscrição, decide-se formar uma delegação. Não existe transparência sobre como ela está sendo formada", afirmou a mãe.
A família sustenta que uma convocação baseada em convites, sem parâmetros previamente estabelecidos e divulgados, compromete a transparência exigida na organização das competições esportivas.
"É como tirar as Olimpíadas de um atleta"
Para os pais, o caso de Priscila expõe um problema mais amplo: a dificuldade de atletas com síndrome de Down encontrarem espaço e reconhecimento nas principais estruturas do esporte paralímpico.
Na natação, esses competidores não possuem uma classe exclusiva nos Jogos Paralímpicos. Por isso, a família considera que os campeonatos mundiais específicos para pessoas com síndrome de Down representam a principal oportunidade de disputar uma competição internacional em condições mais compatíveis com suas características.
"Esse campeonato equivale, para o atleta com síndrome de Down, às Olimpíadas. É a principal competição que eles têm. Impedir a participação é como tirar as Olimpíadas de um atleta convencional", comparou o pai de Priscila.
Segundo os pais, em parte das competições, atletas com síndrome de Down são reunidos na classificação geral destinada a pessoas com deficiência intelectual, sem que sejam consideradas particularidades físicas e biomecânicas associadas à síndrome.
A família defende, por isso, a criação de uma classe nacional específica, a S21, para que esses atletas possam competir entre si e tenham seus resultados reconhecidos nas disputas brasileiras.
De acordo com os pais, o modelo já é adotado em Portugal e começa a inspirar iniciativas em outras modalidades no Brasil. Um dos exemplos citados é o da Confederação Brasileira de Triathlon, que criou uma categoria própria para atletas com síndrome de Down em competições nacionais, ainda que os resultados não sejam homologados internacionalmente.
Para a família, a adoção dessas categorias pode ampliar a visibilidade dos competidores e fortalecer a reivindicação por reconhecimento também no âmbito internacional.
"Quanto mais os esportes aderirem a isso, maior será a pressão para que o comitê internacional reconheça a síndrome de Down como uma classe exclusiva."
Processo: 0739454-63.2026.8.07.0001
Fonte: MIGALHAS


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