Mais do que uma estratégia de marketing, a mascote da urna eletrônica é um símbolo da forma como o Estado brasileiro encara seus cidadãos. Foto: Ana Rodrigues/Secom/TSE

Rondônia - O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) criou uma mascote para celebrar os 30 anos da urna eletrônica.

Batizada com uma onomatopeia que reproduz o barulho da urna após a confirmação do voto, Pilili (foto) foi criada “para aproximar a Justiça Eleitoral da população, especialmente do público jovem” e para “representar, de forma lúdica e acessível, a importância do voto e da participação cidadã”, segundo o TSE. Mas dificilmente Pilili não vai conseguir cumprir sua missão.

A criação de uma mascote, para qualquer que seja a causa ou instituição, parece óbvia hoje em dia, num mundo em que todos competem por atenção nas redes sociais. O TSE, entre outras instituições de Brasília, tem surfado nas tendências das redes para passar suas mensagens.

O limite para essa estratégia de comunicação é a reputação dessas instituições, porque a mensagem pode até chegar mais longe, cumprindo o papel de informar a população, mas, se advogar contra essas instituições, o subterfúgio terá o efeito contrário ao esperado.

Estratégia de campanha

A urna eletrônica foi usada recentemente como estratégia de campanha por Jair Bolsonaro, que semeou dúvidas sobre a apuração dos votos como forma de mobilizar seus apoiadores e garantir que ganharia a eleição entre os seus eleitores mesmo se perdesse.

É uma estratégia usada por outros políticos mundo afora, como Donald Trump. Nos Estados Unidos não há votação eletrônica e, mesmo assim, é possível usar a mesma estratégia.

Apesar de semear dúvidas sobre o sistema eleitoral, os bolsonaristas nunca conseguiram provar qualquer irregularidade, e nem os militares, que foram envolvidos no processo eleitoral de 2022, conseguiram apontar qualquer indício de fraude nas urnas.

Adultos

Diante dessa desqualificação pública, é óbvio que o TSE tem um trabalho a fazer, de explicar por que a urna eletrônica é confiável. Mas é preciso tratar o eleitor como adulto, sem condescendência, e o Estado brasileiro não está exatamente acostumado a fazer isso.

Viralizou nesta semana uma manifestação em que o presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), Luís Philippe Vieira de Mello Filho, defendeu que o papel da Justiça do Trabalho não é fazer justiça, mas justiça social, ao defender os trabalhadores do Brasil.

Essa perspectiva está, de fato, na Constituição de 1988, como argumentou Vieira de Mello, mas isso não garantiu sequer que a tal da justiça social tenha sido feita nos últimos 40 anos — pelo contrário, a tentativa de corrigir o país por linhas tortas só bagunçou as regras e tornou tudo mais difícil.

Eleições

As eleições de 2022 tiveram um protagonismo inédito do TSE. Sob o comando de Alexandre de Moraes, o tribunal tentou responder de forma rápida aos conflitos que surgiam, dispensando, inclusive, a participação do Ministério Público Eleitoral (MPE).

O TSE chegou a impor o adiamento do lançamento de um documentário do qual se conhecia apenas o título, sempre na expectativa de proteger o eleitor de informações falsas, mas sem perceber o dano — provavelmente ainda maior — que esse tipo de decisão causa ao processo eleitoral.

Talvez Pilili não concorde com nada disso e atue para convencer seus criadores de que o melhor é tratar o eleitor como gente grande, inclusive no que diz respeito aos conteúdos de Inteligência Artificial que já circulam neste ano.

Se a mascote conseguir algo do gênero, já terá feito mais do que muitos ministros do TSE.

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Fonte: Rodolfo Borges//O Antagonista